atração fatal

vim juntar-me à pedra
aqui - por questões de sobrevivência - verto constantemente a minha água
onde me dôo
onde me integro
aqui me entrego
aqui me acabo
dou cabo de mim
é meu vá sem fim
em movimento desordenadamente harmonizado

1 comentar:

  1. Da matrona Níobe
    como da fornida Obirici
    verte feminina essa água
    (e por vezes essa lava)
    com que me atavicamente
    empenho em contra corrente
    buscando as fontes
    nos teus seis lábios
    com minhas duas línguas
    até retribuir viscoso
    todo o viço que vertes
    num gostoso espasmo de vida

    Chamam de pequena morte essa
    que nos reproduz à noite
    a luz e o calor do sol
    cujos raios movem
    por bilhares de anos
    a cada dia
    toda a hidráulica, química
    biologia e economia de nosso
    mundo, vasto mundo, encolhido
    em nossa vã filosofia
    com que estendemos nossos lençóis
    com que velamos nossas naus nuas
    ao singrarmos os rios e oceanos
    de nossas margens, istmos e baías

    Terra avisto em teus brilhantes
    olhos negros que me chamam
    terra a dentro em teus tons
    terrosos pontuados ébano e marfim
    numa envolvente melodia que me atavia
    elefalante ao trombar com teus mistérios

    No teu mais baixo alto-forno
    arde todo um eldorado
    em que fundimos nossas estéticas
    políticas e éticas assimétricas
    numa prática conjunta de volúpia
    respeito, ternura e gratidão

    Minha sensível ponta
    é aquecida em tua brasa
    de telúrica lava
    remoída pelas marés das a-
    trações de nossos olhares
    que se encontram e des-
    encontram cíclicos

    Rondamo-nos
    moemo-nos
    irrigamo-nos

    Até que nossas pontas
    pedras, crespos, lâminas
    reviravoltam-se num fino pó
    com que formamos massa
    cuja liga
    por meio do produto
    multiplicador
    dessa soma
    incontável
    religa-nos
    ao reinício
    do próximo ciclo

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