Uma mulher morre, de repente
Sem assassinos, trunfo, pecados
Bastou-lhe o amor, que se mostrava ardente
Ancorar-se em outros portos felicitado
Uma mulher morre, bravamente - ausentes
O suor, o calor, o embate, o encontro
Ergue-se desiludida por entre as cinzas, amaldiçoada
Ferida por desejos que, sem acordos e congruências, jamais satisfaria
Uma mulher morre, austeramente - covarde
A faca afiada em seu pescoço, que não a degola
Por una cabeza, drástica, imatura e dramaticamente morta
Retira-se da vida em prol da carcaça da linearidade (a ser preenchida)
Deixa de ser a mulher em prol de doação aos desejos do amado
Deixa de ser presente para sorver esboços das faltas dele
Inconstante e volatilmente morre, restam inúteis e estridentes, os sentimentos, nas cinzas quentes
Morreu uma ambígua, extinta está a desdita
Com suas paixões, desejos, temores, terrores
Num taj mahal, finalmente, descanse a falecida!
Não há de enuviar nem mais ofuscar encontros quase inocentes ou amistosos
Por sua ambiguidade, a fêmea foi sacrificada
Embora um só fito e intenção, sem magias, mentiras ou profanos mistérios
Mas assim era vista, a dama iludida, em meio às ourivesarias
Suas jóias brilhavam porque constante e firmemente as polia
Dança-diamante, girava; sob as eternas mortes, os desejos mútuos acolhia
Culpada! – cometera, por negação, todos os pecados
Entregou-se com os sentimentos humanos a um homem só no tempo ido
Ele, que não sabia suportar tamanha carga, viu nascimentos repentinos seguidos pela calmaria
Condene-se, a maldita, por compartilhar anseios! Não confie mais ao varão suas tristes alegorias!
Morta - nem Freud, Machado, Jobim ou Sócrates haverão de ressuscitá-la
Esteja estilhaçada em seus pecados, frutos de amores-ingredientes do caldeirão dela
Livre-se o homem da dúvida, da incerteza, da mal tratada e psíquica certeira traição e abandono
Não confiável é Eva, herdeira e recipiente dos medos de celestiais homens, meninos que não crescerão
Esquarteje-se, milimetricamente, via sexista discussão, a amada!
Seu amante não se inclui na reflexão, embora suas amantes sejam alvo ampliado de tiros para todos os lados
Fora ambiguidades! Aqui apenas as amizades! O corpo é jogado às moitas! Revigore-se o cérebro e as sombras afoitas!
(Nada há de mais ambíguo e belo e vivo que a justa entrega ao amor vívido, no entanto)
Morta, sim, até pisoteada, mas não abre sua boca, não se trai, morta, calada
Não se explicará em mistérios, já não é, intimamente, vivenciada
Jamais, para alguém que se recusa a estar dentro, há de falar, manifestar-se
Se não é aceita, amada, querida, respeitada, espaço para a compreensão jamais encontraria
A entrega consciente e honesta, mesmo que bamba, incipiente, é critério necessário tanto nas profundezas como nas superfícies do mar sonhado da cumplicidade
A morta, quando viva, não confiara e, por esse modo, morrera, de forma que, morta, tudo o que não possuiu ou o que efetivamente detinha não lhe será confiado
O covarde morre
ResponderExcluirmil vezes
qual o ciumento é
mil vezes traído
e o tímido é mil
vezes rejeitado
por antecipação
Prefiro morrer uma vez só
em paz
do que em volátil companhia
que me ora ama
ora abandona
ora se arrepende
Não são todas plumas ao vento
algumas podem ser velas
Permite para ti mesma a navegação precisa
ainda que nos a vida seja tão imprecisa
Não complica o que já é complexo
não redundes
não repitas
Respira
vai e vive
dá-te o direito
de ser direta
e, quiçá, feliz